
A opinião pública é implacável, mais do que se possa imaginar. Pesquisas divulgadas em 2025 e no início de 2026 revelam um quadro de crescente desconfiança e descrédito da população brasileira em relação ao Supremo Tribunal Federal (STF). Levantamentos recentes apontam que uma parcela majoritária dos brasileiros considera que a Corte exerce poder excessivo e que a confiança institucional no tribunal vem diminuindo de forma consistente.
Um dos indicadores mais recentes foi divulgado em 12 de março de 2026 pela consultoria de pesquisa Genial/Quaest. Segundo o levantamento, 72% dos brasileiros afirmam que o STF possui “poder demais”, percepção que atravessa diferentes perfis sociais e regiões do país. O dado reforça uma tendência de questionamento público sobre o papel institucional do Supremo no cenário político e jurídico brasileiro.
Foi um nocaute, e o judiciário brasileiro se estatelou no ringue.
A mesma pesquisa mostra que a confiança no STF caiu de 50%, registrados em agosto de 2025, para 43% em março de 2026, atingindo o patamar mais baixo desde o final de 2022. Pela primeira vez na série histórica do instituto, o índice de desconfiança (49%) superou o de confiança (43%), indicando uma inversão na percepção predominante da população sobre a instituição.
Os sinais de desgaste institucional não são recentes. Dados do Instituto Datafolha, divulgados em agosto de 2025, já apontavam um cenário de avaliação negativa do tribunal. Naquele levantamento, 36% dos brasileiros declaravam reprovar o desempenho do STF, enquanto 29% afirmavam aprová-lo. O restante dos entrevistados declarou não ter opinião formada ou avaliou a atuação da Corte como regular.
Transparência
Outro ponto sensível revelado pelas pesquisas diz respeito à cobrança por mecanismos mais claros de transparência e controle interno. A maioria dos entrevistados defende a criação de um código de ética e conduta específico para ministros do Supremo, iniciativa que poderia estabelecer parâmetros mais objetivos para lidar com possíveis conflitos de interesse.
Essa preocupação aparece de forma expressiva nos dados: 79% dos brasileiros condenam a participação de ministros em julgamentos que envolvam clientes de parentes ou escritórios de advocacia ligados à família, prática vista como potencialmente incompatível com a imparcialidade esperada da mais alta instância do Judiciário.
Controvérsias envolvendo membros da Corte também contribuem para a erosão da confiança pública. De acordo com a pesquisa, 35% dos entrevistados afirmam que episódios recentes, como o chamado “Caso Master”, afetaram negativamente a credibilidade do tribunal. O episódio passou a ser citado com frequência no debate público como exemplo das tensões entre atuação judicial e percepção de transparência institucional.
Entre eleitores do ex-presidente Jair Bolsonaro, 84% manifestam desconfiança em relação à Corte. Entre eleitores identificados com a direita não bolsonarista, o índice também permanece elevado, alcançando 77%.
A percepção varia conforme a região do país. O Sul apresenta o maior nível de desconfiança, com 64% dos entrevistados afirmando não confiar no tribunal. Em contraste, o Nordeste é a única região em que a confiança ainda supera a desconfiança, registrando 52% de confiança contra 38% de desconfiança.
Renda
Diferenças socioeconômicas também influenciam a avaliação do Supremo. Entre brasileiros com renda superior a cinco salários mínimos, 55% afirmam desconfiar da Corte, enquanto entre aqueles que recebem até dois salários mínimos o cenário é de empate técnico entre confiança e desconfiança.
Especialistas em ciência política e direito constitucional observam que o atual conjunto de indicadores chama atenção pelo alcance social da percepção de que o Supremo acumula poder excessivo e pela inédita superação da confiança pela desconfiança nos levantamentos recentes.
O desafio institucional, segundo analistas, passa por recuperar a credibilidade pública por meio de maior previsibilidade nas decisões, transparência em relação a potenciais conflitos de interesse e clareza na delimitação entre atuação jurídica e disputas políticas. Em um sistema democrático, lembram especialistas, a autoridade das cortes constitucionais depende não apenas da força jurídica de suas decisões, mas também da confiança que a sociedade deposita em sua imparcialidade e legitimidade.
A pesquisa Genial/Quaest, divulgada em 12 de março de 2026, foi realizada de 8 a 11 de março de 2026. O levantamento presencial ouviu duas mil pessoas acima de 16 anos, com margem de erro de 2,2 pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
*Jornalista profissional diplomado, editor do portal Do Plenário, escritor, psicanalista, cientista político ocasional autoproclamado, analista sensorial, enófilo, adesguiano, consultor de conjunturas e cidadão brasileiro protegido (ou não) pela Constituição Brasileira, observador crítico da linguagem e da liberdade




