História de agricultor que começou com três mil mudas em 1976 revela mudanças no cultivo e na comercialização da fruta
Em 1976, João Fukushi trouxe para Brazlândia três mil mudas de morango da variedade Campinas. O plantio ocorreu fora da época habitual, mas a colheita surpreendeu. Havia terra fértil, água e mercado para o fruto. O agricultor, que também tinha experiência com flores, encontrou nos morangos um motivo para permanecer e construir a vida no Distrito Federal.
“Aqui, com terra nova, tudo que se plantava, colhia. Foi uma felicidade imensa e não tive dificuldades. Tinha terra boa e vendia tudo que plantava”, conta Fukushi.
Aos 75 anos, ele ainda cultiva morango na propriedade. Hoje, são 25 mil pés e variedades como Albion, Camino Real e Sabrina. A irrigação mudou, os canteiros ganharam proteção e os consumidores passaram a entrar na lavoura para colher os próprios morangos.
Sua trajetória acompanha a transformação de uma atividade que, em 2025, produziu cerca de 5,3 mil toneladas de morango, considerando os cultivos convencional e orgânico, em uma área de 169 hectares. A atividade movimentou mais de R$ 105,2 milhões em Valor Bruto da Produção (VBP).
Ao longo de cinco décadas, o conhecimento dos pioneiros se somou à pesquisa e à assistência técnica para mudar tanto a produção quanto às formas de comercializar.
Conhecimento que veio com a família
A história do morango em Brazlândia está ligada às famílias de origem japonesa, como a dos Fukushi, que chegaram à região nos anos 1970, muitas delas vindas de Atibaia (SP). Parte desses agricultores foi assentada no Projeto Integrado de Colonização Alexandre Gusmão. Eles trouxeram experiência com frutas e hortaliças para abastecer uma Brasília que ainda dependia de alimentos de outros estados.
Na família Fukushi, o aprendizado tinha uma referência próxima: o pai, técnico agrícola, que já cultivava morangos antes mesmo de chegar ao Brasil fugindo da guerra. Era no trabalho diário que ensinava a produzir e selecionar os frutos. O agricultor lembra também da troca de informações entre imigrantes, entre os quais havia profissionais com formação agronômica. “Meu pai era um homem de muitos valores e herdei dele o compromisso de oferecer alimentos confiáveis e a disposição para recomeçar diante das dificuldades. Não reclamo de nada. Tudo o que me aparece de dificuldade eu aprendo e aceito”, conta.
A partir do início dos anos 1990, a atuação das equipes da Emater-DF em Brazlândia e no Incra 8 ajudou a ampliar o acesso ao conhecimento sobre a cultura. Estudos, testes de variedades e orientações de manejo contribuíram para a entrada de novos agricultores e a expansão do cultivo para outras regiões do DF.
Fukushi conta que plantou a variedade Campinas por mais de 30 anos. Hoje, escolhe diferentes materiais para oferecer ao consumidor opções de sabor e qualidade, além de melhorar a produtividade. Essa mudança está entre os avanços destacados pelo extensionista Roberto Carneiro, integrante do grupo técnico do morango da Emater-DF e que teve história de atuação na região.
“Uma coisa que evoluiu bastante nos últimos 30 anos foi a diversificação das variedades de morango”, afirma Carneiro. Segundo ele, os agricultores passaram de uma ou duas opções para uma oferta mais ampla, com diferentes características de resistência às pragas e doenças, produtividade, tamanho, sabor e conservação, que permitem atender a diferentes demandas do mercado.
A transformação também aparece na irrigação. Na propriedade de Fukushi, a aspersão deu lugar ao gotejamento, que leva a água diretamente à região das raízes. O sistema permite controlar melhor a aplicação, reduzir custo com energia e economia de água e, quando associado à fertirrigação, fornece nutrientes pela água. A mudança ganhou importância para o agricultor, que relata redução na disponibilidade de água ao longo dos anos.
Nos canteiros, ele utiliza a cobertura plástica conhecida como mulching. A técnica ajuda a conservar a umidade, controlar plantas daninhas e evitar o contato dos frutos com o solo. Microtúneis e estufas acrescentaram proteção contra a chuva e, combinados com outras práticas, permitiram a alguns produtores ampliar o período de colheita para além dos meses secos.
Carneiro destaca ainda a contribuição da produção orgânica de morango, que ganhou impulso no DF a partir de 2003 com o apoio da Emater. Segundo ele, experiências com composto bokashi, biofertilizantes e produtos biológicos para o solo e as plantas geraram conhecimentos, que também passaram a ser aproveitados no cultivo convencional.
O tempo do solo e os desafios que permanecem
Mesmo depois de décadas na atividade, Fukushi continua aprendendo com a lavoura. Nesta safra, conta ter perdido mudas ao antecipar o uso de um adubo orgânico que ainda não estava pronto.
“Na natureza, o preparo do solo acontece ao longo do tempo: a folha cai, se decompõe e vai disponibilizando os nutrientes. Na agricultura, muitas vezes queremos fazer tudo muito rápido, com pressa de produzir e ganhar dinheiro. Só que a planta é um ser vivo. A gente precisa observar, entender o que ela precisa e respeitar o tempo dela. Não é simplesmente do jeito que a gente quer”, fala Fukushi.
A experiência do agricultor condiz com os diagnósticos relatados por Carneiro. O extensionista aponta que excessos na adubação, tanto no plantio quanto na cobertura, continuam entre os desafios da assistência técnica. A aplicação desequilibrada eleva os custos, traz doenças e pode comprometer o desenvolvimento das plantas. Assim, o acesso a novos produtos precisa vir acompanhado de análise do solo, orientação e observação da lavoura. Além disso, os erros frequentes por excessos na irrigação promovem perdas de fertilizantes minerais, insumos cada vez mais dispendiosos, além de elevarem os riscos fitossanitários.
Outro ponto decisivo para uma boa safra é a qualidade das mudas. Carneiro lembra que, nos anos 1990, transporte inadequado e problemas nas raízes prejudicavam o estabelecimento das plantas. Ações de fiscalização e orientação ajudaram a melhorar o material recebido ao longo do tempo melhorando as questões de sanidade e de transporte, que ainda podem melhorar. “Mas o produtor precisa ficar atento se o viveiro é certificado, se fornece material de qualidade. Também deve ter um bom planejamento para a chegada das mudas e preparo do solo para o plantio”, afirma.
Essas questões levaram equipes técnicas a percorrer lavouras em 2025 para identificar os problemas enfrentados pelos produtores. Os resultados dos diagnósticos foram discutidos com os agricultores, gerando o que denominou Pacto pelo Morango, com atenção à qualidade das mudas, à adubação e ao manejo de pragas e doenças.
Quando o consumidor entra na lavoura
Para Fukushi, adaptar-se também significou repensar a venda. Em um período de dificuldades financeiras e de falta de mão de obra para a colheita, ele e as filhas adotaram o Colha & Pague, com orientação inicial da Emater-DF. A experiência recuperou uma solução que o pai já havia utilizado décadas antes: receber o consumidor para colher a própria fruta.
Com o visitante entre os canteiros, o sabor e a qualidade ganharam ainda mais importância nas escolhas do agricultor. Hoje, ele também considera processar parte da produção para agregar valor ao que cultiva. Depois de cinco décadas, mantém a disposição para ajustar o trabalho ao que aprende no campo. “Procuro a qualidade, muito mais do que a quantidade”, afirma.
Diversidade nos canteiros e à mesa
Para atender a diferentes públicos e necessidades, os produtores do DF atualmente contam com diversas variedades para cultivo. Camarosa, San Andreas, Portola, Festival, Camino Real, Sabrina e Alpina 10 estão entre as principais variedades cultivadas na região. A escolha considera tanto as condições de produção quanto o mercado a que os frutos se destinam.
A San Andreas, por exemplo, apresenta boa firmeza e resistência ao transporte, enquanto a Sabrina se destaca pelos frutos doces e suculentos, ambas indicadas para consumo in natura. Já Camarosa e Camino Real atendem também à industrialização, ampliando as possibilidades de aproveitamento da colheita.
A pesquisa brasileira também acrescentou uma nova opção: a BRS DC25, conhecida como Fênix. Desenvolvida pela Embrapa Clima Temperado e lançada em 2023, a cultivar foi aprovada para plantio no Distrito Federal em 2025. Entre seus atributos estão a produção precoce, o equilíbrio entre açúcar e acidez e a boa conservação dos frutos após a colheita. Destinada principalmente ao consumo in natura, também pode ser utilizada pela indústria de frutas congeladas. Seu desenvolvimento integra o esforço para ampliar a oferta de cultivares adaptadas às condições brasileiras e reduzir a dependência de materiais estrangeiros.
A trajetória de Fukushi mostra que permanecer no campo exige mudar e se adaptar. Novas variedades surgem, a tecnologia de manejo e produção mudam e aparecem novas formas de comercializar e de agregar valor ao morango. Sua lavoura aproxima duas pontas da história do morango no DF: o conhecimento das famílias pioneiras e as possibilidades que a pesquisa, a assistência técnica, as políticas públicas, a experiência e a vontade dos produtores abrem para as próximas safras.


