terça-feira, 28 julho, 2026
More
    InícioCOLUNASCultura AtivaJardim Botânico de Brasília recebe mostra que transforma o Cerrado em espaço...

    Jardim Botânico de Brasília recebe mostra que transforma o Cerrado em espaço de criação artística

    -

    II Festival Galeria Aberta: Arte da Terra reúne seis artistas do Distrito Federal em instalações inéditas concebidas para dialogar com a paisagem. Foto de Daisy Barros, por Jean Peixoto

    Há exposições em que a paisagem serve de cenário. Nesta, ela é parte da própria obra. Durante dois meses, o Jardim Botânico de Brasília deixará de ser apenas um espaço de contemplação da natureza para se transformar em um território de criação, onde árvores, vento, luz, chuva, sons e os próprios visitantes passam a integrar a experiência artística. É nesse diálogo permanente entre arte e Cerrado que nasce o II Festival Galeria Aberta: Arte da Terra.

    Com curadoria de Patricia Bagniewski e Renata Azambuja, a mostra reúne obras inéditas de Adriane Kariú, Coletivo Vaga-mundo – poéticas nômades, Daisy Barros, Nina Coimbra, Patricia Bagniewski e Valéria Pena-Costa, concebidas especialmente para o Jardim Botânico de Brasília. Entre 2 de agosto e 30 de setembro, o público será convidado a percorrer um circuito de instalações que propõem novas formas de perceber a paisagem, aproximando arte contemporânea, memória, ancestralidade, ciência e meio ambiente.

    Realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC-DF), o projeto retoma uma iniciativa criada em 2012 e reafirma sua vocação de transformar um dos mais importantes patrimônios naturais da capital em espaço de experimentação estética.

    Criada a partir do desejo de romper os limites das galerias e museus, a Galeria Aberta parte de uma ideia simples e, ao mesmo tempo, radical: antes de ser exposta em salas de paredes brancas, a arte nasceu na própria paisagem. Ao ocupar o Jardim Botânico, a mostra não leva obras prontas para um ambiente natural. Ao contrário, convida os artistas a criar a partir do encontro com o Cerrado, fazendo da natureza uma presença ativa na construção de cada instalação.

    “Antes de habitar museus e galerias, a arte habitava a paisagem. As primeiras imagens produzidas pela humanidade surgiram em cavernas, rochas e territórios específicos, inseparáveis do lugar que lhes dava origem”, observa a curadora Patricia Bagniewski.

    A curadora ressalta ainda que o próprio parque se transformou desde a primeira edição do projeto, tornando-se um espaço ainda mais vivo de convivência e experimentação. “Toda paisagem é também uma memória: um espaço vivo de relações, experiências e temporalidades. Como a própria paisagem, as obras também se inventam na duração.”

    Para Renata Azambuja, a exposição foi concebida para ser vivida em movimento, acompanhando o ritmo da caminhada pelo Jardim Botânico. “Cada instalação oferece uma maneira singular de experimentar o Jardim Botânico. A Galeria Aberta convida o visitante a caminhar sem pressa, permitindo que arte e paisagem revelem novas possibilidades de encontro.”

    Essa proposta ganha forma por meio de seis trabalhos que, embora distintos em linguagem, compartilham uma mesma compreensão: criar na natureza não significa representá-la, mas construir relações com ela.

    Logo no início do percurso, Adriane Kariú, artista e educadora pertencente ao povo Kariú Kariri, apresenta uma sequência de painéis inspirada na serpente ancestral que, em sua cosmologia, protege as águas subterrâneas. A instalação aproxima memória, território e ancestralidade, refletindo uma pesquisa artística voltada aos saberes indígenas, ao corpo e à contra-colonialidade.

    Na sequência, Daisy Barros transforma tecidos reaproveitados em uma grande composição têxtil inspirada na forma de uma bandeira. A obra reúne referências às manifestações populares brasileiras, aos diferentes biomas e às práticas sustentáveis de reuso. Sua produção integra importantes acervos institucionais, entre eles os do Palácio do Planalto e do Sesi Lab.

    O percurso conduz, então, às esculturas de Nina Coimbra, distribuídas como grandes seixos ao longo da caminhada. Entre escultura e mobiliário, as peças convidam à pausa e à contemplação, estabelecendo um diálogo entre experiências vividas pela artista no Brasil e no Japão. Com trajetória em instituições como MASP, CCBB Brasília e Funarte, Nina transforma o próprio ato de permanecer em parte da obra.

    Também integrante da mostra, Patricia Bagniewski apresenta uma instalação que amplia a percepção sobre a vida vegetal ao permitir que o público ouça as frequências sonoras internas de uma árvore da espécie Clúsia. Reconhecida internacionalmente por suas pesquisas em vidro e instalações ambientais, a artista propõe uma experiência de escuta que revela aspectos normalmente invisíveis da natureza.

    A dimensão coletiva da exposição aparece na instalação do Coletivo Vaga-mundo – poéticas nômades, grupo de pesquisa do Instituto de Artes da Universidade de Brasília. Inspirado na árvore lunar cultivada em Brasília a partir de sementes que viajaram ao espaço, o trabalho aproxima ciência, imaginação e geopoética, expandindo a percepção sobre tempo, paisagem e território.

    Encerrando o percurso, Valéria Pena-Costa apresenta um conjunto de pequenas casas construídas com materiais naturais. Delicadas e silenciosas, as estruturas evocam abrigo, impermanência e memória, convidando o visitante a aproximar o olhar da terra e dos ciclos de transformação que caracterizam tanto a natureza quanto a existência humana.

    Além das instalações, o II Festival Galeria Aberta – A Arte da Terra promove uma programação de formação composta por visitas guiadas com as curadoras, artistas e arte-educadores, além de um ciclo de palestras dedicado às relações entre arte contemporânea, biodiversidade, experiências sensoriais, espiritualidade e processos criativos.

    Mais do que apresentar obras de arte em um parque, a Galeria Aberta propõe uma mudança de perspectiva. Ao reconhecer o Jardim Botânico como parte da criação artística, a mostra transforma o Cerrado em um espaço de experimentação estética, onde cada visita é atravessada pelas mudanças da paisagem e pela experiência singular de quem a percorre.

     

    Serviço:

    II Festival Galeria Aberta: Arte da Terra

    Curadoria: Renata Azambuja e Patricia Bagniewski

    Local: Jardim Botânico de Brasília

    Visitação: de 2 de agosto a 30 de setembro, de terça a domingo, das 7h às 16h30

    Ingressos: https://www.jardimbotanico.df.gov.br/visitacao/horarios-e-ingressos

    Classificação indicativa: livre para todos os públicos

    Informações: https://www.instagram.com/galeriaaberta_festival/

    Notícias Relacionadas

    DEIXE UMA RESPOSTA

    Por favor digite seu comentário!
    Por favor, digite seu nome aqui

    spot_img
    -Publicidade -spot_imgspot_img

    Últimas notícias