domingo, 19 julho, 2026
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    Nem Copa faz o varejo decolar

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    Marcos Machado

    O brasileiro está sem dinheiro, sem crédito e sem vontade de comprar. O reflexo da crise atingiu em cheio o varejo, que enfrentou forte restrição e o pior resultado mensal real em indicadores privados específicos (como o índice da Cielo) no mês de maio. Nem mesmo a Copa do Mundo de Futebol deu jeito. A culpa? Não, não é daquele político, ela é consequência do empobrecimento da população, com os baixos salários que não acompanham a escalada inflacionária e pelo aumento estratosférico do custo do crédito.

    Dados oficiais do IBGE dão conta que as vendas do comércio varejista cresceram 0,1%, praticamente nada, em maio na comparação com abril, interrompendo, teoricamente, uma sequência negativa anterior. O resultado, supostamente positivo, frustrou quem apostava em uma recuperação em torno do evento esportivo.

    O mês registrou antecipação de compras voltadas para o torneio (como livros/álbuns de figurinhas, vestuário e eletrodomésticos/TVs), mas o ritmo geral do comércio seguiu desacelerado e abaixo das expectativas iniciais do mercado.

    Indicadores de volume real ampliado (como o da Cielo) apontaram retrações acentuadas em termos de faturamento real comparativo anual em maio e junho, marcando os piores desempenhos para o período desde o ano de 2020, o ano da “pandemia”.

    Irritante realidade

    O governo continua vendendo a ideia de que a economia atravessa um momento extraordinário, com emprego recorde, renda em alta e consumo aquecido. O problema é que o brasileiro insiste em atrapalhar essa narrativa. Sem dinheiro sobrando no bolso, sufocado pelos juros mais altos das últimas décadas e vendo o custo de vida avançar mais rápido que o salário, simplesmente deixou de comprar.

    A Copa do Mundo, tradicionalmente um dos maiores motores do consumo popular, desta vez produziu apenas um entusiasmo passageiro, incapaz de esconder a fraqueza do mercado interno.

    Consequência

    As razões não são difíceis de encontrar. A inflação continua corroendo o poder de compra das famílias, especialmente nos alimentos e serviços. Os salários crescem em ritmo insuficiente para compensar o aumento do custo de vida e a taxa Selic permanece em patamar elevado, encarecendo o crédito ao consumidor. O resultado é previsível: menos compras parceladas, menos consumo e mais prudência.

    Outro fator que limita a recuperação é o elevado endividamento das famílias brasileiras. Com boa parte da renda comprometida, sobra pouco espaço para gastos considerados supérfluos, mesmo durante eventos tradicionalmente favoráveis ao consumo.

    O contraste entre os discursos oficiais e a realidade das vitrines chama atenção. Enquanto autoridades comemoram indicadores isolados como prova de uma economia pujante, lojistas enfrentam movimento fraco e consumidores que fazem contas até para comprar o básico. Se nem uma Copa do Mundo consegue estimular as vendas, talvez o problema esteja menos na disposição do consumidor e mais na capacidade financeira dele.

    A propaganda oficial pode até sugerir um país em pleno aquecimento econômico, mas do lado de fora dos palácios e das entrevistas coletivas, a realidade continua menos generosa. Afinal, quando falta dinheiro no bolso, nem o futebol consegue fazer a economia entrar em campo.

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